LUCAS – 24.13.35 Um encontro no caminho Domingo, final de tarde, fim da festa que não aconteceu para os discípulos de Jesus. Depois dos dias de sofrimento, só resta voltar para casa, para a aldeia de onde saíram quem sabe um dia em nome da esperança. E onde haviam deixado casa, família, trabalho, e as poucas comodidades em nome de uma promessa do profeta de Nazaré. No caminho a conversa entristecida, o desanimo, a dor, o luto. Como seguir adiante depois de tantas atrocidades, ainda que as mulheres tenham anunciado que viram Jesus ressuscitado. Parece que esta noticia não foi suficiente para ser acreditada por todos. Cleófas e o outro discípulo preferiram retornar para Emaús. O caminho é longo, cerca de 10 km. A tristeza é grande. Na solidão da dor, descobrem a solidariedade da vida. No caminho, de repente descobrem que não estão sozinhos. Alguém os acompanha e com ele podem desabafar, falar da dor, do sofrimento, e perplexos perguntam como pode o caminhante não saber de todos os acontecimentos de Jerusalém. Para os dois discípulos de repente o caminho a Emaús se torna o caminho da vida. Assim também nós, muitas vezes, pensamos que estamos sozinhos/as. Caminhamos falando de nossas tristezas, de nossas dores e sofrimentos, e nem percebemos que Ele está ao nosso lado. A dor nos cega, ainda que tenhamos a visão perfeita. Enxergamos, mas não vemos. Vemos mas não reconhecemos. Assim como os discípulos de Emaús, também nós muitas vezes, andamos por este mundo afora, sem esperança, sem motivação, sem coragem para levantar os olhos e ver quem está ao nosso lado. Sentimo-nos sozinhos, mesmo que acompanhados o tempo todo. No fim do dia, o cansaço, a necessidade de paragem, de um lugar para proteger-se dos perigos. Os discípulos chegam ao destino e convidam o companheiro desconhecido da viagem para passar a noite ali. A hospitalidade faz parte da tradição. O convidado também deve partir o pão. E ao realizar o gesto tão comum e conhecido, no partir do pão os olhos se abrem, e descobrem que caminharam o tempo todo com o ressuscitado. Jesus já não está com eles fisicamente, mas os seus corações estão alegres e transformados. Já não há mais tempo a perder. Amanhece um novo dia! Um novo tempo vai começar. É preciso retornar, pôr-se a caminho, buscar os companheiros e dar início à missão de testemunhar o que os olhos viram e o coração sentiu. O milagre da ressurreição não pode ser compreendido com o olhar da razão, mas com os olhos da fé. Nos gestos concretos, conhecidos, solidários, é que o Cristo se dá a conhecer. Assim foi naquele tempo e continua ainda hoje. Não estamos sozinhos, mesmo que a tarefa seja árdua, mesmo que pareça impossível, mesmo que as adversidades da vida pareçam ser maiores que as nossas forças. Jesus caminha ao nosso lado, mesmo que não o reconheçamos como companheiro de viagem. Paciente, amigo e amoroso, ele segue conosco. E então quando a dor passar e nossos olhos se abrirem, daremos conta de sua presença ali ao nosso lado. E então somos lembrados e convidados/as a testemunhar. Este é o convite e desafio desta semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Por vezes, a caminhada ecumênica é dura, temos dificuldades em dialogar, em enxergar quem está ao nosso lado. Nossos medos, preconceitos, nossas tradições nos impedem de convidar o desconhecido e diferente para entrar em nossa casa e partilhar o pão/ a palavra na mesma mesa. Mas Ele continua conosco, na esperança de que um dia nossos olhos se abram, e arda o nosso coração. E então caminharemos lado a lado, não como desconhecidos, mas como amigos e irmãos. Por isso ao caminhar por este mundo fiquemos atentos aos que caminham ao nosso lado. No gesto solidário podemos encontrar o caminhante de Emaús. Oração: QUÉDATE (Florentino Ulibarri) / Tradução e adaptação: Neusa Tetzner “Fica conosco Senhor, que já se faz tarde, que o caminho é longo e o cansaço é grande. Fica e diga-nos palavras vivas, que aquietam a mente e acendem a alma. Dissipa nossas dúvidas e temores. Olha-nos com teus olhos de luz e vida. Devolve-nos a ilusão perdida. Lava as feridas destes pés cansados. Desperta-nos com gestos humanos. Compartilha nossas refeições. Mostra-nos, paciente, teus ensinamentos. Parte o pão de tua companhia, abre os olhos da fé adormecida. Fica conosco e renova nossos sonhos. Dá-nos tua alegria e tua paz de novo. Conduze-nos sempre ao mundo, à vida, para ver teu rosto no rosto de cada pessoa a cada dia. Fica conosco Senhor, que se faz tarde e o cansaço é grande”. Amém. Vocês serão testemunhas dessas coisas (Lc 24.48)
Autor: Neusa Tetzner - (c.distancia@cesep.org.br)